quinta-feira, dezembro 25, 2008

# 038

olha, surpresa
sorriso de criança
eu fiz foi gostar

quinta-feira, dezembro 18, 2008

# 037

E rogou praga:
carregará cabeça,
por toda vida!

sexta-feira, novembro 07, 2008

# 036

...porque a dor move e não há nada mais primeiro do que o impulso de gritar conforme a perda. Carregavam os móveis, na mudança da calçada para a kombi, cabisbaixos porque sabiam da verdade do discurso que ouviam. 
A senhora com a criança ficou do outro lado da rua, sem voltar com a notícia da filha sobre a venda. 
Era intenso o choro do homem. Vermelho, escorria com a farpa no dedo. Quatro peças de vime, três cestos, uma cadeira, jogados com um lacre. Cinco policiais e um serviçal da prefeitura. Todos ali a serviço, tirando o sustento. As peças foram compradas no crédito e ainda se pagariam.
Violadas num crime. O laudo de apreensão era escrito, mas não se imprimia a revolta. Por que não se dá o trabalho?! A menina apertou a mão da vó que a fez subir dali no elevador de serviço. O social estava ocupado, não dava pra usar, e a vantagem era que não lhe oferecia espelho. Não queria ver, nem refletir. Mas a menina a observava por baixo, esperando cobertura. 
Desceram no lar único do andar, apressado e nebuloso. Na altura em que estavam, cortariam nuvens em movimento, a menina terminava o algodão e a vó se neblinava.
- Compraram a cadeira? - perguntou a filha, saída do banheiro suado.
A velha mal olhou.
- Ele não estava mais... 
A menina lambeu o espeto de madeira com gosto de açúcar e o jogou no lixo da cozinha. Não entendeu direito por que não ganhou a cadeirinha de balanço que era "bonita por ser de vime". Mas o gato dispersou tudo em pêlo.
Rolou no chão duas vezes, com a barriga pra cima, esperando carinho. 

sexta-feira, outubro 03, 2008

# 035

beleza simples,
em vencer tempo:
a flor do campo

sexta-feira, setembro 26, 2008

# 034

porta fechada
casal põe-se em canto
não vejo qual, ouço

sexta-feira, setembro 19, 2008

# 033

olho de perto
em seu rosto, mais traço
traçado quando

segunda-feira, setembro 15, 2008

# 032

"
furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto
"

Matsuo Bashô

quarta-feira, setembro 10, 2008

# 031

...reler, pr'achar melhor.
E levar tudo a sério,
minha ilusão maior...

quinta-feira, setembro 04, 2008

# 030

Protegendo do sol
o ipê cobre o carro
com chuva amarela

# 029

Levanta no escuro 
som terrível de bicho
bola de pêlo

quinta-feira, agosto 21, 2008

# 028

Costela de porco, batata, couve e arroz. Em camadas, sendo que a carne se cozinha antes três vezes para dessalgar. Quando se abre a panela, o arroz parece quebrado, numa nata que cobre. E o tempero é a couve. Sirva o primeiro prato e deixe na mesa um pouco para esfriar. Reze um pão nosso de cada dia, porque é assim que ela gostava, e deixe como prato ofertado (os mais novos comem com queijo, parmesão ralado, mas ela não punha). Quando tomar, já no fim, não perceberá mais calor. Também, dentadura não permite tanta sensibilidade, mas queima um pouco por baixo, na camada da carne. Não a costela, que expurgava no peito e dava aflição na hora do banho, mas na boca, onde seria o céu. E que outro céu senão comer o que gosta? Daqui a pouco vou comer flor, dizia como argumento quando um doce proibido. E por mais que fosse velha, tudo isso era novo. A costela até que não, pois ali foi o primeiro susto de um buraco que não um furúnculo - e na receita vinha escrito isso, que não era (mas ela achava que era). Vinha também um refresco, um suco de se tomar na veia. Às vezes era branco, quase igual chá. Há quem goste de chá depois do caldo, porque ajuda a digerir, e é tanta gordura que é bom mesmo tomar algo. Dá pra ver a gordura no prato. Dava pra ver na borda, quando puxava a pele pra limpar na terceira água. E a água salgada, jogue fora. Só que esfregue os olhos discretamente, depois, pra ninguém ver. Ou pode enxugar num pano de prato - mas é detalhe, nem todos o fazem. E tem ainda a couve: cortada em fios. Fininha, cabelo de anjo, se enfeita melhor assim. Só tem que lavar antes, pra tirar a sujeira. E não precisa tanto, viu?, porque a couve é aberta e o bicho só anda por cima da folha, fácil de ver. Difícil é repolho, que é fechado e a larva come por dentro. Não vai repolho na sopa, mas aprenda com ele, pra não se fechar demais. A vó não sabia mais disso e o colocava às vezes. Faça o sinal da cruz e sinta o aroma de tudo, dos ossos quebrados aos cabelos verdes. Sente? Não é uma sopa, mas um ancestral. Rende a toda a família, em quatro porções fundas.

quarta-feira, agosto 06, 2008

# 027

Ía esculpir, ali, algo que se apagou.
E por perder no vento o que se pretendia pedra,
por um momento largou o formão, em silêncio branco.

quinta-feira, julho 31, 2008

# 026

...de volta. Ninguém esperava mais. E na facilidade do hábito, desacostumaram-se com aquela presença que de repente surgia. Caminhou muito tempo pelas ruas, procurando horizonte numa cidade que não tinha. E com tantos anteparos e edifícios, o olhar que lançava sempre voltava, porque não havia onde se perder. Como não ser individualista num lugar que só nos faz enxergar a si próprio? Tentou aliviar o suor do inverno quente e seco, deslocado como tudo naquilo, mas não achou rio limpo o suficiente para se banhar. Procurou fonte, bica, mas nada de natural ali mais existia. E viu que o artifício do lençol, que se esconde sob a superfície, também já estava poluído. Um dia, quem sabe, a harmonia natural dos dois voltasse... Mas na consciência, do olho que enxerga além do pó cinza, percebia que tudo agora era um. E seco. Mas isso não foi um despertar. Só clarividência de olho d'água que brota da irritação do meio. E esse meio era o caminho. Num chafariz tímido, esfriou nuca e pulsos, e resolveu voltar. Não queria mais o extraordinário, como a metrópole oferecia, queria o simples, a vida que o corpo pede desde a origem. E agora, no meio do caminho, voltar aos pólos era negar o positivo, andar pra trás um pouco e perceber que o que estava à frente era ilusão. Não ilusão, porque voltar também era, mas incompleto. E nessa percepção, de buscar-se completar entre ilusões, viu que precisava do outro, e por isso voltou. Pensou em escrever algo antes, mas desistiu, porque não os faria entender melhor. Seria apenas justificativa, pra aceitar a própria volta. E por isso voltou simplesmente. E se pôs de novo aos olhos daqueles que antigamente o viam, sem saber da imagem que persistia nas retinas. Gerou outra, mais simples. Voltou.

quinta-feira, maio 01, 2008

# 025

"
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.

Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.

E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.

Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.

A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.

E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.

O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.

"

Clarice Lispector
em Laços de família

sábado, março 22, 2008

# 024

Que são esses cavalos?
...polícia montada, pedindo pro carro sair.
A gente não tá no ponto.
Não, é mais pra cima. A gente tá bem no bueiro.
Vamos até o banco.
A seguro? ou a senhora em mim?
Seguro só pra atravessar rua.

Foi sozinha.
...que a senhora enxerga? Branco?

Se eu perguntasse me olhariam,
pois não se tira cisco do outro já assoprando.
Trago de infância ainda isso, surpresa boba
de branco no preto, traçado num ponto.
Um impulso freado: Vista Alegre serve?

Fiz sinal e subi junto, servia pra mim.
Me deixa no primeiro ponto da Pujol?
Onde a senhora vai descer?
Na Igreja.
Igreja? De Santana tá lá atrás.
Na batista. Desse lado mesmo.
Um prédio alto, com peixe enorme.

Se fosse de nascença, o peixe seria um milagre,
e o motorista sem nunca ter visto
(porque, também, nem todos crêem de nascença)
Boa Páscoa pro senhor!
A calçada tá a um metro. Cuidado com o cone.

Desceu, nem viu cone, nem calçada.
Foi direto à porta, sem tropeçar.
Sabia as escadas de ouvido e subiu no tato do pé.
O que a senhora enxerga? ...luz?

terça-feira, março 11, 2008

# 023

...sinto o mesmo,
pelo que parece contrário,
pois em mim vejo deus,
com angústias e imperfeições.
Reconheço beleza das larvas
e o que grita no eco do tempo
pela minha carne: Eu sou!


"
(...)
...falavam em devoção, amor e humildade. Posso assegurar que me esforcei, mas, durante todo o tempo em que houve um deus em meu mundo, não pude sequer me aproximar de meus objetivos. A humildade não era suficientemente humilde, e o amor era, em todo o caso, muito menor do que o de Cristo ou o dos santos, ou até menor do que o de minha mãe. Quanto à devoção, essa esteve sempre envenenada por dúvidas terríveis. Agora que Deus não está mais presente em minha vida, sinto que tudo isso é meu, sinto devoção perante a vida, humildade perante meu destino sem sentido, e amor para com as outras crianças também amedrontadas, atormentadas, cruéis.
"

Ingmar Bergman,
em Bilder

domingo, março 02, 2008

# 022

O orgulho dela carregou a TV sozinho, até o centro da sala, com duas polegadas. A nora olhou em espanto, não esperava ver ao vivo, e passou mal. Com um quarto de músculo, osso bem pesado, encheu a boca. E sangrou no ponto.
Na reprise da novela, ruminou até o jantar. Mugiu pra dentro reengolindo assunto em dobradinha. Encheu bucho a colheradas, porque com garfo ia pedir faca, e arrotou vaca olhando a carne que comia. Não tirava chifre da cabeça. E a mulher o achava certo, porque o filho não errava - só respondia casmurro, dom passado desde o relho.
Durante Ave Maria, no jornal da rádio, vizinhas de receita perguntaram do regime confinado e encurralaram a campainha a ver Maria. Berrante, a sogra tocou cheia de graça, "Tá dando leite! ...trouxe manteiga que pedi?". Ora queijo, ora manteiga, ora coalhada, derivava leite toda hora espantando moscas que juntavam a zumbir perguntas do novilho. E respondia em ora ação.

Bendita sois vós entre as mulheres, bendito o fruto de vosso ventre. Rogai por vós, os pecadores. E nessa prece, a boiadeira é quem guiava. Foi assim com o pai, por que não com o filho? Aceitava macho forte como touro, mas toureava. E se perguntassem na porta sobre o que ele fez, erguia parede, quantas necessárias, o protegia em labirinto, junto ao segredo de sua origem...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

# 021

Queria espirrar tornado,
não girar só a tempestade,
que me chamassem Katrina
pra dançar árvores, virar casas do avesso,
queria tudo abaixo, só pernas pro ar,
ver pessoas formigas
pra pisá-las sem dó,

soltar de palavras o vento,
respirar fungado a quebrar silêncio,
e que o atchim fosse curto,

mas de vasta dor,
sem sobrar pulmão a desejar saúde,

o sopro dado não seria de vida,
porque simplesmente não deus,
e num piscar do furacão, o olho
me faria ouvir o que mudo
pra emitir mais voz...


O entorno continuaria em tornado,
mas sentiria assim a brisa
que range os bambus
e os ouviria assoviar:
Sou flexível!
E o vento,
tornado em mim
viver

terça-feira, fevereiro 05, 2008

# 020

- ...às vezes, a gente inventa coisa na cabeça!
- Eu tava pensando nisso...
- No quê?!
- Não sei, você começou...

Parei um instante em sorriso, percebendo a lógica da conversa e continuei colar de contas. Lavava roupa no tanque pra ajudar a máquina, porque sozinha, coitada, não dava conta, dizia ela. E eu quarava o corpo sem camisa, longe, sob varal. Mesmo assim jurava tê-la visto ao meu lado, enquanto agulhava dedo e miçanga.

- ...é que eu te vi aqui do meu lado, agora mesmo... acredita?!
- É, às vezes, a gente inventa coisa na cabeça.
- Eu tava pensando nisso.

Um verde, outro marrom, o colar se repetia em cores: como novo e maduro. E no instante da velha, não foi só riso, mas risada, de lavar alma.

- ...mas eu acredito! Maior desgraça, não acreditar nas coisas.

Ela era assim, a lavadeira, engraçada. E a gente se entendia, sem roupa suja.

No fim das contas, sorri das repetidas e da pérola que ela me dava, pra fechar o colar com brilho.

sábado, janeiro 05, 2008

# 019

Enxergava chuva fina antes de cair.
Hoje olho pro chão pra ver se está chovendo.
Não vejo a hora de vencer grade de vidro
e sair à rua pra sentir seu cheiro, molhar o corpo.
Meus olhos ganharam nuvens sem sentido,
mas que refresco ver os sentidos ganharem chuva!